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Toy Djack - Vida sem droga (Life without drug)

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Published on Jun 26, 2012

Música "Vida sem droga". De: Toy Djack. CD "paraíso escondido"

Alguns dias após o lançamento do CD do meu pai, eu decidi ouvi-lo do principio ao fim, durante uma viagem de carro, de modo a poder ter tempo e contexto para refletir. Tive a sensação de que estava a ouvir uma compilação dos principais pensamentos, conselhos e preocupações do meu pai. Assim como aqueles livros "Gestão segundo..." ou o "Tao de ...". Em particular, esta música "Vida sem droga" contém frases, expressões e reflexões que o meu pai dizia a mim e aos meus irmãos durante a adolescência. Algumas dessas expressões como por exemplo: "Cuidod na quel primer fuminhe", que se pode traduzir para "cuidado com a primeira passa", ficaram gravados na nossa memória. Mas, uma coisa é ler esta frase. Outra é ouvi-la, em crioulo da ilha de São Nicolau, dita pelo meu pai, com a pronuncia bem marcada de Ribeira Prata e com a entoação muito cómica juntamente com uma expressão facial séria e por vezes quase intimidatória. Esse método do meu pai fazia-nos reter os conselhos, ficar muito tempo a pensar neles, respeitá-los e sobretudo achar-lhes imensa piada. Depois, tornavam-se como vírus que se espalhavam de forma epidémica porque eu e os meus irmãos passávamos muito tempo a gozar uns com os outros utilizando esta e outras frases do meu pai. Assim como a frase "o meu único vício é o trabalho", gozávamos uns com os outros repetindo as frases "quel primer fumo ê que perigoso", ou "cuidod na quel primer fuminhe".
Há uma história relacionada com o "fume/fuminho" (passa) que se tornou clássica em nossa casa. Certo dia, alguns jovens estavam próximos da nossa casa, na varanda da mercearia, a fumar ganza. Esse material deveria ser bom porque o cheiro era muito característico que até a minha avó paterna de 90 anos que estava no terraço a uns 8 metros de altura e que já tinha problemas de olfato, o reconhecia. Eu e um irmão meu estávamos a passar perto dos jovens. A minha avô gritou indignada: "Amitra, Abrão, bsot sei que quel fum" (Amílcar, Abrão, saiam da fumarada/não apanhem o fumo". Essa advertência da minha avô foi feita com muita veemência e com o braço direito fletido e em forma de V invertido com um vigor de fora para dentro. Escusado será dizer que o nosso irmão Laurindo achou tanta piada a essa história que passou a contá-la vezes sem conta e muitas vezes associada à expressão do meu pai sobre a primeira passa e à palavra "Gandjon". Que eu saiba, o termo "Gabdjon" foi criado por um amigo nosso chamado Lela. Deriva de Gandja (ganza). Gabdjon significa aquele que fuma ganza e já apresenta critérios avançados de dependência.
Tenho de tirar o chapéu ao meu pai porque, sem dúvida, ele era um educador exímio. Sabia transmitir-nos os ensinamentos sobre o que devíamos fazer e também sobre o que NÂO devíamos fazer. Por vezes a sua assertividade poderia ser um pouco rígida e não muito bem recebida por nós. Nessas alturas recorríamos à nossa mãe para nos dar mimos. Penso que nós beneficiamos de um balanço entre a coragem, determinação e assertividade do meu pai e a bondade, harmonia e afectividade expressa da minha mãe.
Na estrofe "Se queres viver uma vida saudável/Se queres ter uma longa vida/Dá-lhe o merecido valor/Não sigas os vícios do mundo", o meu pai utiliza mais uma das suas expressões típicas. A frase "não sigas os vícios do mundo" tem mais piada em crioulo de São Nicolau: " Ca bô segui vissarada de mundo". Não é fácil traduzir a palavra vissarada neste contexto, pois acaba por perder as suas várias conotações neste contexto em que o meu pai o colocou. Porém, pode-se aproximar de "adição, dependência ou vício". Sublinho, mais uma vez, que essa frase dita em crioulo de Ribeira Prata, São Nicolau, com a entoação do meu pai faz com que seja bastante cómica mesmo num contexto muito sério.
Uma vez mais o meu pai termina um dos seus poemas com uma mensagem positiva: "Se tens auto-confiança, luta para venceres na vida e construíres a tua felicidade".

Irmãos "AEFLAAAI e J"
Lisboa, Junho de 2012

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