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As Intimidades de Analu e Fernanda 1979

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Published on Oct 2, 2009

Com narrativa semelhante às produções hollywoodianas dos anos 40, "As Intimidades de Analu e Fernanda" (1980) levava ao público brasileiro, em um período marcante de abertura na vida nacional, aquilo que o diretor e roteirista José Miziara sabia fazer de melhor: rocamboles eróticos, oportunistas, transpassados por certo moralismo ingênuo e machismo de anedota, daqueles nos quais se a mulher não é frágil, é neurótica. Se não é obediente, é fácil.

Frágil e fácil, a heroína Analu (Helena Ramos) desiste do marido Gilberto (Ênio Gonçalves), escuta o lp "Guto Para Viver"(?!?), bebe uísque contrabandeado e conhece em um botequim Fernanda (Márcia Maria), pantera emancipada, dominadora, que se toma de amores por ela. As duas partem para uma casa de praia em Ubatuba, vivem um romance, trocam juras de amor e confidências.

Terminasse aqui o argumento, teríamos um belo drama de costumes -- no estilo que a Boca produzia aos montes -- sobre um casal diferente. Uma reflexão -- pinçada do erotismo comercial -- sobre o amor entre iguais. Mas como nada é fácil, Miziara achou por bem que duas mulheres juntas vivem necessariamente angustiadas por algo que falta.

E o que falta? O pênis, claro. Na presença de um, tanto Analu quanto Fernanda desmontariam sua paixão de aparências. Eis que surge o garanhão -- um garanhão qualquer, tosco e gaiato -- que seduz ambas e provoca o fim do relacionamento. Primeiro, Fernanda vê Analu aos risos com o rapaz. Em seguida, parte para cima dele e os dois transam. Analu presencia a cena e foge.

Desorientada, perambulando seu corpinho bronzeado pelas areias quentes, Helena Ramos encontra Maurício do Valle, no papel de um pescador bêbado, sobre o qual Glauber Rocha faria centenas de obscuras alegorias. Febril em ciúmes de Fernanda, resolve se deixar possuir pelo caiçara. Vira de bruços, e Maurício do Valle logra o êxtase, em uma parte de Benedita (primeiro nome de La Ramos) onde muitos gostariam de estar.

O que incomoda em "As Intimidades", mais do que esse esquema simplório -- que em outros casos soaria engraçado --, é a crença mórbida em uma culpa inevitável, que ninguém sabe de onde vem. A iluminação noir, o olhar pesado da câmera, tudo nos induz à crença de que elas fazem algo de muito espúrio, que terminará em desagregação e tragédia.

Se não há indícios de religião, nem de moral vinculada, há -- à semelhança de "Embalos Alucinantes" -- uma motivação particular do diretor. Ou Miziara era hipócrita e acreditava que seguindo um código Hays conquistaria uma platéia menos tolerante, ou seu pensamento era contraditório ao ponto de trabalhar em um meio permissivo manipulando repressão insidiosa.

Até um parecer (4190/80) da Censura, emitido em 4 de agosto de 1980, foi taxativo em dizer que "Apesar da exploração do lesbianismo, o assunto é tratado com certa seriedade (...) atenuado por um desfecho que desencoraja a prática de atitudes similares (...)."

Quando Fernanda encontra Analu desmaiada na praia (dotes calipígicos à mostra, como convém a um suspense made in Boca), o relacionamento entre as duas já terminou. Mas como bem disse a senhora censora, Fernanda está louca, e começa a perseguir Analu para que a miséria, a penúria existencial se consuma.

Há no desfecho de thriller toda uma explicação vitimizante para Analu -- ela seria eternamente "refém" de seus casos amorosos -- que não convence. Persiste uma lição prussiana, como se fugir ao rigor das convenções sociais enrolasse tanto o ser humano em perigos que a libertação só fosse possível através do retorno dócil às mesmas convenções. Um ciclo vicioso e controlador. Mensagem mais reacionária que essa, impossível.

Bom lembrarmos que "As Intimidades de Analu e Fernanda" rivalizou nos cinemas -- menos de seis meses de intervalo entre os lançamentos -- com duas das mais libertárias produções da história: "Giselle", fábula de Carlo Mossy, e o sensacional "Império do Desejo", de Carlos Reichenbach. Se possível, recomendo vê-los em maratona: Mossy, o sexo schopenhaueriano; Reichenbach, uma discussão franca sobre quando termina a ideologia e começa a perversão; e Miziara, o lúmpen aburguesado, dialética de algo que não servindo para explicar, é falho mesmo em confundir.

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