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Publicado em 22 de out de 2008

Audioart, Videoart by Paulo R. C. Barros

AUDIOART

Sci-Fi short story inspirada na videoarte de Paulo R. C. Barros

Por Rynaldo Papoy

O verão-2 chegou após dezesseis anos.
Quando o telescópio espacial japonês descobriu o planeta geomórfico CD Guovairr Giyu, em Magalhães, achamos que era um clone melhorado da Terra. O eixo de 2,5º garantiria uma quase inexistência de estações do ano. Seria uma primavera eterna. O dia durava trinta e uma horas e dez minutos. O ano? Bem, pela velocidade da translação de Guovairr, deveria ser equivalente a uns cinquenta anos terrestres. As jazidas de minerais raros e pedras preciosas equivaliam a quinze vezes as reservas da Terra. A exploração mineral no nosso planeta natal foi interrompida e, durante quase dez anos, três milhões de colonos mudaram-se para o paraíso extragaláctico.

Descobrimos então que CD Guovairr Giyu tinha estações do ano sim. E que estações!

O problema era a órbita extremamente exótica de Guovairr. Quando achamos que o planeta iria dar uma voltinha exata na estrela CD, ele seguiu em frente. Geólogos foram trazidos ao planeta para tentar calcular nosso ano, baseados nas idades das camadas do solo. Chegaram à conclusão de que o planeta tinha uma órbita aproximada de noventa anos. Porém, havia oito estações, às quais chamaram, pela ordem: verão-1 [quando chegamos], outono-1 [em que estávamos entrando], inverno-1, primavera-2, verão-2 [onde a vida humana ou geo-biológica não seria possível], outono-2, inverno-2 [vida terrestre também impossível] e primavera-1, onde os seres terráqueos poderiam viver, novamente. Na verdade, as únicas estações do ano aprazíveis em CD Guovairr Giyu seriam o verão-1 e outono-1, com temperaturas semelhantes às da Terra. Já o inverno-1 poderia fazer o equador do planeta chegar a -75º, temperatura idêntica ao do inverno antártico. O verão-1, no seu auge, mandaria os termômetros a 60º, como no Saara.

Já o verão-2 ferveria os mares, criando uma atmosfera de 180º, onde apenas uma parte dos seres nativos do planeta, cujos fósseis foram chamados de berbéricos, poderiam sobreviver, enquanto no inverno-2, somente os imperatóricos arriscariam suas carcaças em -200º.

Os berbéricos e os imperatóricos não hibernavam ou estivavam. A cada ano surgiam novas gerações, que deixavam seus ovos enterrados até o ano seguinte, quando eclodiam. Esta descoberta fascinou a todos.

Quando os humanos começaram a retornar, eu fui um dos poucos que ficaram em CD Guovairr Giyu. Eu sou médico.

Os anos terrestres foram passando e o frio foi aumentando, até que no ápice do inverno- 1, a temperatura bateu os -75º previstos. Obviamente ninguém saiu às ruas. Pobres terráqueos éramos.

Eu andava pelas instalações dando remédios para todo mundo. Até para mim mesmo. Tomávamos o chá de coquinha o dia todo. Invenção dos japoneses, que deixavam gigantescas jarras térmicas de ban-chá com folha de coca em suas minas e fábricas, hábito que acabou se espalhando pelo planeta.

Nesta época, éramos pouco mais de sete mil pessoas. Passar de três milhões para sete mil foi muito deprimente. O trabalho e a coquinha matavam o tempo. Não estávamos apenas longe de casa, estávamos em outra galáxia.

Muitos não agüentavam a febre de Magalhães, como a depressão era chamada e eram mandados de volta a Terra. Eu mesmo assinei mais de trinta dispensas médicas.

Lá fora, não havia nuvens. Toda a água do planeta estava congelada. Observávamos a monumental Via Láctea sobre nossas cabeças, ocupando toda a abóboda de Guovairr, de horizonte a horizonte. Perto dela ficava a temporariamente pálida CD, que, no entanto, era a estrela mais brilhante do céu. Era lindo e assustador.

O inverno-1 durou seis anos e acabou.

CD Guovairr Giyu voltou a se aproximar da estrela e a aproximação foi violenta e espetacular.

O gelo derretia-se a uma velocidade estonteante. Blocos de gelo chocavam-se nos mares, o que, misturado aos próprios sons do gelo fundindo-se, produzia estrondos e assobios bizarros que lembravam sinfonias surrealistas.

Resolvemos gravar os sons e mandar para a Terra, onde os foram chamados de Audioartes naturais.

Isso deu origem à primeira onda de turismo extragaláctico da história humana. Todo mundo queria ouvir de perto a audioarte de CD Guovairr Giyu.

Mas agora é hora de voltar. O verão-2 chegou e a temperatura já está em 80º. Logo, os mares começarão a ebulir.

Cheguei aqui com 25 anos e agora tenho 50. Mas nem um ano se passou em Guovairr, o exótico pseudo-geomórfico planeta sonoro. Pretendo voltar, daqui 25 anos.

Quero saber o que acontece ao final do inverno-2. E tentarei viver mais cinqüenta anos para contemplar a inesquecível audioarte mais uma vez.

http://www.paulorcbarros.com/scifi.htm

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