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soutoda boa

  • Portugal Podre (2012) performance efémera e mal cheirosa

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    Todos os dias, todos os supermercados e restaurantes e mesmo pequenas mercearias ou talhos, deitam quantidades insanas de comida perfeitamente comestível para o lixo, apenas para manter o mercado a girar à velocidade automática de compra e venda e produção e desperdício a que o habituámos.

    Todos os dias Portugal, país pequeno e modesto e sonhador e tantas vezes deveras apático, cai cada vez mais dentro da armadilha da macro-economia europeia em que fomos inevitavelmente inseridos com vista a seguirmos as pressões da maioria.

    Enquanto a nossa agricultura evapora e apodrece, esquecemos o que é natural e poluimos o nosso próprio quintal planetário; as garras dos bancos apoderam-se do dinheiro inventado que manipulam e emprestam a seu bel-prazer; passando por cima das vidas e ilusões dos que nunca tiveram a hipótese de olhar o mundo a partir do topo da pirâmide dos privilégios.

    Esta performance é um manifesto, esta performance cheira mal, é pegajosa, nojenta até, onírica mas efémera, veio do lixo mas voltará à terra, será enterrada no auge do seu bolor no jardim em frente à assembleia da república portuguesa, quando já nada restar da nossa nação, nem o saudosismo dos descobrimentos, nem a poesia dos navegadores, apenas um odor acre a tudo o que fomos e a tudo o que deixámos perder-se em prol duma alucinação colectiva, que agora virou global, chamada dinheiro.

    Será uma marcha fúnebre de protesto que virará festa, antes que o manto do controlo nos manche a todos o coração, revoltemo-nos pelos direitos à beleza e à arte, contra a mecanização dos sentimentos e o esquecimento do sabor dum sorriso.


    Adeus Português

    Nos teus olhos altamente perigosos
    vigora ainda o mais rigoroso amor
    a luz dos ombros pura e a sombra
    duma angústia já purificada

    Não tu não podias ficar presa comigo
    à roda em que apodreço
    apodrecemos
    a esta pata ensanguentada que vacila
    quase medita
    e avança mugindo pelo túnel
    de uma velha dor

    Não podias ficar nesta cadeira
    onde passo o dia burocrático
    o dia-a-dia da miséria
    que sobe aos olhos vem às mãos
    aos sorrisos
    ao amor mal soletrado
    à estupidez ao desespero sem boca
    ao medo perfilado
    à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
    do modo funcionário de viver

    Não podias ficar nesta casa comigo
    em trânsito mortal até ao dia sórdido
    canino
    policial
    até ao dia que não vem da promessa
    puríssima da madrugada
    mas da miséria de uma noite gerada
    por um dia igual

    Não podias ficar presa comigo
    à pequena dor que cada um de nós
    traz docemente pela mão
    a esta pequena dor à portuguesa
    tão mansa quase vegetal

    Mas tu não mereces esta cidade não mereces
    esta roda de náusea em que giramos
    até à idiotia
    esta pequena morte
    e o seu minucioso e porco ritual
    esta nossa razão absurda de ser

    Não tu és da cidade aventureira
    da cidade onde o amor encontra as suas ruas
    e o cemitério ardente
    da sua morte
    tu és da cidade onde vives por um fio
    de puro acaso
    onde morres ou vives não de asfixia
    mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
    sem a moeda falsa do bem e do mal

    Nesta curva tão terna e lancinante
    que vai ser que já é o teu desaparecimento
    digo-te adeus
    e como um adolescente
    tropeço de ternura
    por ti Alexandre O'Neill Show less
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