Na madrugada do primeiro dia do ano, os tambores já prenunciavam mal agouro para a cultura popular de Vassouras, e o presépio maltrapilho construído em lugar impróprio pela Prefeitura, era a mais clara evidência de que nenhum evento aconteceria ali.
Os documentos exigidos para a participação das crianças no XXXVII Encontro das Folias de Reis de Vassouras eram absurdos, arbitrários e representavam uma missão quixotesca para a grande maioria das famílias humildes obtê-los. Exigiram uma declaração dos pais e uma cópia de sua carteira de identidade; certidão de nascimento do menor, atestado de sanidade mental e uma declaração do colégio. Nesse último, metade ficou agarrada porque as secretarias ou estavam fechadas ou naquele momento não havia um funcionário autorizado para assinar. O atestado de sanidade nenhuma apresentou.
Também faltava o Nada a opor da Polícia Militar e o Nada a apor do Corpo de Bombeiros, que não foram providenciados pela Prefeitura, e estava escrito na testa do pai do prefeito que o Encontro das Folias de Reis era uma utopia, um elefante branco.
Até que, no dia 5, para a surpresa de todos, um palco gigante começou a ser erguido ao lado da Igreja Matriz e muitos se perguntavam se haveria outra festa na cidade, uma apresentação do PIM, talvez. Mas ele estava ali, imponente e com os olhos vítreos nos cofres públicos do município.
Por volta das 18 horas, chegou o comunicado no qual a juíza Anna Cristina havia indeferido o Alvará e a festa estava embargada. O motivo era a documentação das crianças, que estava incompleta. Algumas tinham e outras não, mas todas as Folias de Reis foram punidas e o folclore religioso massacrado.
Mas nada se falou do Nada a opor, e o prefeito, o pai, o irmão, a mãe e a cúpula da Prefeitura insistiam que a culpa era dos pais das crianças, que não providenciaram os documentos, e que a juíza pessoalmente esteve lá e proibiu a festa.
O site subversivo Vassouras Urgente veiculou um e-mail assinado pelo irmão do prefeito, que assim diz: (...) e por uma falta de documentação dos responsáveis dos menores que iriam participar, a justiça embargou o evento.
Segundo o advogado aposentado Carlos Maciel, 63, que todos os anos traz a família para passar dez dias na cidade, no período de Reis, tratou-se de discriminação, abuso de autoridade e um atentado contra um culto religioso. Por isso, ele arrumou as malas e voltou com os netos para São Paulo, xingando até a décima geração da juíza e garantiu que irá denunciá-la ao Conselho de Magistratura.
Para o dono de uma Folia de Reis, o exame de sanidade mental deveria ter sido feito na cabeça de quem exigiu um certificado do colégio, sendo que não há lei que determine que um menor só possa participar de um evento religioso se estiver estudando. Sem contar que fere o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Por outro lado, vem de gerações longínquas os filhos acompanharem os pais, lado a lado, com roupas idênticas, e participarem do mesmo ritual de fé, que na maioria das vezes está relacionado a uma promessa.
Dentro da legislação brasileira, nenhum juiz tem poder para impedir um menor de participar de um ato religioso ao lado do pai, e pior ainda, embargar um evento religioso. Salvo se o local não oferecer segurança ou existir algo que possa colocar em risco a integridade física dos integrantes e da platéia.
E foi justamente o que aconteceu. Faltaram os Nada a opor, principalmente do Corpo de Bombeiros, e o juiz Victor Passos Miranda, que estava de plantão, foi obrigado a indeferir o Alvará devido à falta desses documentos.
Conheça Vassouras antes que acabe!
Dessa vez, a situação saiu do âmbito político interno, das quinquilharias das roubalheiras impunes, e atingiu de chofre o folclore mais importante do município, que está sob a tutela jurídica do Art.216, 4º. Pois além de causar danos e ameaçar o patrimônio cultural, derrubou o turismo, que é uma das principais atividades econômicas do município.
E se cada núcleo folclórico, a História e um casarão forem destruídos, seja por corrupção ou por incompetência, e as autoridades não se importarem e os vassourenses também não, nada sobrará. E quando chegar o desemprego, lojas falindo, imóveis sem inquilinos, assaltos pela cidade, lixo, corrupção maciça nos meios públicos, escassez de dinheiro, fome e miséria, restará ao povo apenas a lembrança da grande Vassouras que um dia foi e não é mais.
Matéria completa em www.vassourasnanet.com.br
OLá Marcelo. Ainda não postei a síntese da matéria. O dono dessa Folia de Reis, que se chama Oséias, não quer mais sair, devido à sacanagem que a Prefeitura fez..
Grande abraço!
mariorandolfo 2 years ago