Morte na arena da ingratidão
Cada vez que deito em minha cama
Tento concentrar-me para dormir um sono de paz
Sinto que uma pequena morte clama
E está prestes a tomar-me a alma num assalto fugaz
A essas pequenas mortes, seguem-se as pequenas vidas
Com seus personagens-bagaços
Suas horas mágicas e suas feridas
Seus minutos de esperança e de cansaços
Como uma visita diária e fiel, na subconsciência embutida
pulsações da mente inquieta mantêm-me em vigílias sufocantes
E neste momento-prisão, sinto todas as mazelas que me rodeiam no fazer da vida
Passeiam em minhas memórias todas as baratas, ratazanas e cobras dos caminhos meandrantes
E esse sentir em aguda clareza, como relâmpago revelador,
entope-me o entendimento e esmaga-me a sensibilidade
Vem assim o desejo da limpeza sonhada, do justo extermínio da dor,
da destruição benéfica, da ação impiedosa, e do alívio etéreo pelo fim da maldade
Neste estado de máxima lucidez e concentração diabólica
Sobre o abismo humano que nos dá a conhecer
A duras penas reflito, tenazmente e sem máscaras insólitas,
Todos os dias, todos os anos, até o fim dos tempos de ser
E assim, essa lucidez que de tão nítida embriaga
De tal forma afronta e revela, que se afigura impossível
não desejar essa pequena morte- chaga
sono-descanso, momentâneo e imprescindível
Eu, verdadeiramente lúcido e crente
Neste momento de angústia flagrante
quando lembro de certos entes,
certos corpos-erros no andaime torto da vida oscilante
caixeiros viajantes vendendo ilusões transcendentes
E que à estrada retornam no vindouro poente
Abre-se em minh´alma a porteira do desassossego imanente
Em disparada, rumina mais forte o touro-ego, leal e latente
E sonha, desmedidamente,
com o dia em que derrubará
seu toureiro psicopata e serpente
sangue derramado sobre a arena da ingratidão
que me liberta do amor insensível e ausente
Gives me chills!
paopaomanalansan 1 year ago