O Homem, o Cavalo e o Cachorro - Narração de J. S. Fernandes

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Uploaded by on Aug 10, 2011

Uma Fábula para Tempos sem Ética

Um homem, seu cavalo e seu cão, morreram em um acidente. Depois do choque inicial, resolveram que ficar ali, jogados no acostamento, não resolvia nada. Decidiram, então, ir andando para ver se chegavam a algum lugar. Quando se deram conta, já estavam caminhando um bom tempo por uma estrada deserta. Caminhada longa, sempre morro acima, sem referenciais conhecidos. O sol estava forte e eles ficaram exaustos, desidratados, com muita sede.
Nada parecia fazer sentido, sabiam já não estar vivos! Mesmo assim, precisavam desesperadamente de água. Após algum tempo, ao contornar uma curva, avistaram um portão magnífico, todo de mármore, que conduzia a uma praça calçada com blocos de ouro. No centro havia uma fonte de onde jorrava água cristalina. Juntaram suas últimas forças e correram para o esplêndido local.
O caminhante dirigiu-se ao homem que numa guarita, guardava a entrada e o cumprimentou:
- Bom dia, ele disse.
- Bom dia, respondeu o homem.
- Que lugar é este, tão lindo? Perguntou.
- Ora! Que pergunta! Não está vendo? Isto aqui é o céu...
- Que bom que nós chegamos ao céu, estamos com muita sede, disse o homem.
- O senhor pode entrar e beber água à vontade, disse o guarda, indicando-lhe a fonte.
- Mas, meu cavalo e meu cachorro também estão com sede.
- Lamento muito, disse o guarda. Aqui não se permite a entrada de animais. E antecipando seus pensamentos, completou: Muito menos retirar algo e levar para fora. Deixe-os por aí que o instinto os guiará.
O homem ficou muito desapontado porque sua sede era grande, mas sua intuição dizia não ser correto se satisfazer sozinho, deixando seus animais sofrendo com sede. Eles tinham sido bons servidores e o homem os considerava mesmo como amigos. Seja por conta do reconhecimento desta relação de serviços bem prestados, seja pelas dificuldades enfrentadas juntos ou por naquele momento estarem com ele. Assim, resolveu prosseguir seu caminho, estranhando as condições do paraíso.
Depois de caminharem bem mais, morro acima, a sede e o cansaço se multiplicaram. Exaustos, chegaram a um sítio, cuja entrada era marcada por uma porteira velha semi-aberta. A porteira se abria para um caminho de terra, com árvores dos dois lados que lhe faziam sombra. O panorama era majestoso, porém simples e calmo. À sombra de uma das belas árvores, um homem estava deitado, cabeça coberta com um chapéu de palha. Parecia estar dormindo:
- Bom dia, disse o caminhante.
- Bom dia, disse o homem deitado.
- Estamos com muita sede, eu, meu cavalo e meu cachorro.
- Há uma fonte naquelas pedras, disse o homem, indicando o lugar. Todos podem beber à vontade.
Todos então foram até a fonte e saciaram a sede, aproveitando para encher alguns cantis, que estranhamente estavam por ali. Na volta, passaram pelo fazendeiro e o agradeceram:
- Muito obrigado, ele disse ao sair.
- Oh! Já vão? Nem passaram pelo pomar. Voltem quando quiserem, respondeu o homem.
- A propósito, disse o caminhante, qual é o nome deste lugar?
- Aqui é o Céu, foi a resposta.
- O Céu? Mas o homem na guarita lá embaixo, do portão de mármore, disse que lá era o Céu!
- Oh, não! Aquilo não é o Céu, aquilo é o Inferno. Depois do portão dourado há um abismo eterno...
O caminhante ficou perplexo, mas parou para pensar e disse:
- Mas, então, disse ele, essa informação falsa deve causar grandes confusões.
- Absolutamente, respondeu o homem, agora resplandecendo uma luminosidade ímpar. Na verdade, eles nos fazem um favor.
- Como assim?
- É porque lá ficam aqueles que são capazes de abandonar até seus melhores amigos. Onde há respeito pela vida e pela condição do outro não há lugar para os que têm o egoísmo como norte. Aqueles que são capazes de reconhecer os benefícios que receberam e tratam seus subordinados -- sejam homens ou animais -- com justiça e dignidade quando chegam aqui são bem vindos.
- Mas eu não achei que fazia tanto. Apenas seguia o bom senso, exclamou o viajante.
- Aquilo que você chama de bom senso é algo longamente formado e para muitos esta é uma aprendizagem muito difícil. Luís Sérgio

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Film & Animation

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