«Mãe Preta» tantas vezes interpretada, cantada e gravada, quer na versão de grito antiesclavagista de Piratini e Caco Velho, quer na fenomenal abordagem romântica e fatalista de Amália sobre os versos magníficos de «Barco Negro» de David Mourão-Ferreira.
Depois de tantas interpretações magníficas, pensaríamos ser impossível que alguém inovasse e nos surpreendesse.
Mas eis que Deolinda Bernardo, reinventando as sonoridades e emprestando a sua ímpar leitura das palavras, nos presenteia com uma peça única de beleza e sensibilidade.
Descobrimos as raízes na sua totalidade mas, aqui, a etnicidade não é redutora, antes detonadora de uma explosão que se espalha na imensidão da portugalidade. O grito da escrava torna-se denúncia de todas as exclusões numa actualidade impressionante.
Os instrumentos vivem da sua unicidade mas não se individualizam, antes se completam e equalizam num simbolismo quase subliminar de universalidade da miscigenação.
E no meio de tudo, ou envolvendo tudo, ou sobrepondo-se a tudo, a cor da voz de Deolinda, numa interpretação extasiante e comovente, em que cada nota escutada nos empresta imagens de expressões doloridas prenhas de emoção e sentimento, num equilíbrio exemplar entre a beleza da voz e o turbilhão de intenções transmitidas.
Na voz que se eleva, lemos muito mais do que uma simples súplica de libertação; é todo um manifesto contra a indiferença, a pobreza, a exclusão, a escravidão quotidianas... É sobretudo um hino ao humanismo, numa interpretação arrepiante e sublime que quebra barreiras e que é absolutamente obrigatório ouvir uma e outra vez.
Hélder Bértolo
alta musica e o primeiro comentario e meu
thisissparta582 7 months ago
alta musica
thisissparta582 7 months ago