Uploaded by BiscoitoFino2008 on Mar 3, 2008
Um cd ou um show de Olívia Hime nunca é, apenas, uma simples e aleatória sucessão de músicas que ela gostaria de cantar e/ou que o público gostaria de ouvir. Isso porque, unindo todos os elementos que compõem seus trabalhos, há sempre um conceito desenvolvido, com inteligência, e à luz de sua sensibilidade muito especial.
Foi assim quando pediu aos maiores compositores deste país que musicassem poemas de Manuel Bandeira para "Estrela da Vida Inteira"; quando produziu o cd "A Música Em Pessoa", composto apenas por poesias musicadas de Fernando Pessoa; quando criou o belìssimo "Alta Madrugada" - perfeito para se ouvir "in the wee smalls hours of the morning" -; quando ressuscitou músicas de Chiquinha Gonzaga, encomendando letras a poetas contemporâneos, no cd "Serenata de uma Mulher"; quando transformou em movimentos de uma sinfonia camerística as "marinhas" de Dorival Caymmi em "Mar de Algodão" ou quando fez um vôo rasante nas suas próprias letras em "Canção Transparente" - cuja canção-título foi indicada ao Grammy.
E isso se repete no disco Palavras de Guerra, lançado em fevereiro de 2007, e cujo registro do show homônimo, em cd e dvd, sai agora pela Biscoito Fino. Conceitualmente, o projeto é inteiramente dedicado à obra poética de Ruy Guerra, com músicas de Edu Lobo, Chico Buarque, Carlos Lyra, Sérgio Ricardo e Francis Hime. O vínculo de Olívia com a poesia e a literatura é mais do que óbvia - não só por ser ela mesma uma letrista, mas também por seus trabalhos com Bandeira e Pessoa. Ou seja, trata-se de uma cantora que, além de se preocupar com notas musicais, instrumentos e arranjos, também tem profunda ligação com o que está sendo dito, com o significado do que está cantando.
"Ruy escreve sobre o que eu vivi. Ele faz parte da minha história, como amigo e como artista", resume Olivia Hime. "Optei por gravar músicas que se referem à minha formação, sobretudo nos anos 60 e 70, embora também tenha selecionado material inédito. Através de Ruy, canto Francis, Chico, Edu, Carlinhos...", avalia.
Em Palavras de Guerra ao Vivo é flagrante, mais do que nunca, uma Olívia-intérprete, transformando-se em veículo para as palavras de Guerra - como se fosse um instrumento vocal a serviço do que o poeta tem a nos dizer. Apoiando esta intenção, temos um roteiro que costura versos e temas não como num show convencional, mas como numa "antologia poética", onde uma letra levanta um tema, que emenda em outro e, assim, aos poucos, vai se compondo o universo de Guerra - muitas vezes sendo lembradas apenas algumas estrofes das canções, vinhetas que costuram este entrecho dramático-musical.
Na seleção de Olivia, não poderiam faltar as canções compostas para o musical Calabar, de Ruy e Chico Buarque. Entre elas, Tatuagem, Fortaleza (falada em off por Ruy, e ligada a Ana de Amsterdam) e Bárbara. Da parceria com Chico aparecem também Você vai me Seguir, Fado Tropical e Sonho Impossível. Entre as músicas feitas com Edu Lobo estão Jogo de Roda (que abre e encerra o show), Reza e Em Tempo de Adeus. Olivia registra músicas de Carlos Lyra (a marcha-rancho Entrudo) e Sérgio Ricardo, com quem Ruy Guerra compôs Esse mundo é meu.
O disco inclui dez parcerias de Ruy com Francis Hime: Carta e Máscara passaram por pequenas adaptações de sujeito: "Eu já as havia gravado no feminino e pensara em verter para o masculino, para ser mais fiel às letras originais. Mas Ruy me sugeriu que as deixasse no feminino, pois estava familiarizada com elas desta forma". Já Meu Homem, inevitavelmente escrita para ser interpretada por uma mulher, ganhou contornos de tango. As outras são Corpo e Alma, Por um Amor Maior, Minha, Ode Marítima, Ieramá, Corpo Marinheiro e Último Canto.
Em Palavras de Guerra ao Vivo, as interpretações da cantora colocam em evidência tudo o que Ruy escreveu. Não só através do cuidadoso roteiro, como pela sugestiva cenografia de Edward Monteiro, pela recortada iluminação de Paulo César Medeiros e, principalmente, pela dramaticidade dos arranjos e direção musical de Francis Hime, que lança mão de raras sonoridades como harpa, viola ou acordeon tocados por alguns dos melhores músicos brasileiros: Cristina Braga (harpa e voz), Ricardo Medeiros (contrabaixo), João Lyra (violão e viola), João Carlos Coutinho (piano e acordeon) e Diego Zangado (bateria e percussão). A direção geral do show é de Flávio Marinho.
Nos extras do dvd, making- off do show e o documentário À Respeito de Ruy, com depoimentos de Andrucha Waddington, Carlos Lyra, Chico Buarque, Francis Hime, entre outros.
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