Livro do Antropólogo Roberto DaMatta
30 de junho de 2009
Livraria da Travessa Rio de Janeiro.
Fotos: Paulo Resende e José Luíz Alves Cunha
Música: O que foi feito deveras - Cantada por Elis Regina
Pequeno trecho da Crônica de Roberto DaMatta
Em torno do Progresso e do Sofrimento
Circunstâncias não previstas ligaramme ao mundo dos aviões e dos aeroportos. Tive um filho que morreu uma morte não anunciada nem esperada junto com a sua amada Varig, no derradeiro dia de suas férias.
Diante da morte, ele não teve aqueles sinais que vão dos sintomas resistentes aos remédios caseiros, até a contrariada consulta ao médico, a surpresa quando se constata a doença grave ou incurável, a internação e, finalmente, o inominável divórcio, como cadáver ou cinza, daqueles que amorosa e exultantemente o trouxeram a este mundo, agora transformado e vivido como um vale de lágrimas. Mas teve, sem dúvida, como ele bem pressentia, o abandono de um governo que sequer cogitou considerar uma gigantesca dívida para com a sua companhia ou os dinheiros do fundo de pensão dos seus trabalhadores para salvá-la de si mesma. Atitude que tem sido sistematicamente negada quando se observa o modo com o qual o governo federal trata os sindicatos e os movimentos sociais debaixo de suas asas. Como todos aqueles que perderam seus entes queridos de uma hora para a outra, e como pai de um aviador e não de um mero piloto, como eram esses nobres comandantes do Airbus que sumiu em algum lugar de um oceano que julgávamos mapeado e portanto conhecido, eu sinto uma enorme revolta contra aquilo que um lado meu vai morrer perguntando ao outro sem jamais ter uma resposta: se o Lula tivesse tido mais consideração ou "cuidasse" melhor da Varig, eu estaria com o meu filho a meu lado? Estariam sua mulher e filhos gozando da energia protetora do marido e do pai dedicado para prover-lhes segurança e dar-lhes carinho e amor? Sorte dos que, por meio de alguma ideologia política, econômica ou religiosa, explicam os acidentes e as incertezas. Que respondem ao "porquê" aquela pessoa ou grupo cumpriu o trágico destino da morte sem aviso. Viver num universo deslindado pelas leis da História, do mercado ou protegido por um Deus onipotente, ou dinamizado por espíritos e vontades que tudo governam, é mais tranquilo do que receber a bofetada do caos e da desordem promovida pelo infortúnio da magnitude desse acidente com o avião da Air France. Receber a pancada e manter-se de pé, certo de que é justamente esse brutal encontro com a transitoriedade que nos torna verdadeiramente humanos, é, no entanto, para alguns, a mais honrosa prova de amor à vida. É o teste crucial de que ela pode ser mesmo vivida com o amor que nada pede, nem mesmo a sua justificativa, ou o seu mérito porque como se diz, inspirado por São Paulo e Thornton Wilder, no amor nossos erros não duram muito.
Uma homenagem de todos os Trabalhadores da VARIG ( aposentados e pessoal da ativa demitido ).
Abraços fraternos de todos os Trabalhadores da VARIG e meu especialmente.
pauloresendefotograf 2 years ago
Livro do Antropólogo Roberto DaMatta
30 de junho de 2009
Livraria da Travessa Rio de Janeiro.
Fotos: Paulo Resende e José Luíz Alves Cunha
Música: O que foi feito deveras - Cantada por Elis Regina
pauloresendefotograf 2 years ago