A polícia que atira sem perguntar e mata inocentes
A morte do menino João Roberto Soares é uma tragédia que se repete no Rio de Janeiro - civis inocentes assassinados pela Polícia Militar.
Dez anos atrás, a PM atirou contra um carro onde viajava uma família, a caminho da maternidade. Morreram a mulher, grávida; a criança que ela esperava; e um outro filho, de quatro anos.
O marido e a filha, milagrosamente, sobreviveram. O Fantástico conversou com eles e também com policiais que tentam explicar o inexplicável.
Uma casa humilde na Baixada Fluminense. E uma menina de 13 anos quer fazer um agradecimento.
"Eu queria agradecer ao João Roberto e à família do João Roberto por ter me dado esta córnea, porque estou muito feliz de estar enxergando", agradece Sueny Kellen.
Ela recebeu uma das córneas de João Roberto Soares, que faria quatro anos no próximo dia 29. Ela vai passar a ter pelo menos 40% da visão de um dos olhos, o direito. Ela nunca viu a luz do sol.
"Muito emocionante. Estou muito feliz, estava esperando praticamente há cinco anos. Infelizmente aconteceu no meio de uma tragédia. Veio a acontecer para a minha filha conseguir enxergar, né? A gente olha para o olhinho dela e aí a gente lembra: João Roberto. Não tem como, não tem como não lembrar", disse Kátia da Silva, mãe de Sueny.
Há uma semana, João Roberto estava com o irmão de nove meses e a mãe, Alessandra, numa rua da Tijuca, Zona Norte do Rio. Dois policiais militares fizeram 17 disparos contra o carro de Alessandra. Eles alegam que perseguiam bandidos. João Roberto levou três tiros, um deles na cabeça, e teve morte cerebral.
"Por favor, não deixe o caso João Roberto se dissipar. Não deixe. Não deixe a morte do meu filho ser à toa. Ninguém vai trazer ele mais de volta. Mas as pessoas não têm que perder mais seus filhos, ninguém tem que sofrer mais que nem eu", desabafou Paulo Roberto Soares, pai de João Roberto.
Um policial militar sabe o que é ferir inocentes. Há alguns anos, ele participava de uma operação em uma favela, quando um carro suspeito recebeu ordem para parar.
"Fui me aproximar para abordar, quando escutei o primeiro tiro, por trás de mim", conta o sargento da PM.
Era um outro policial da equipe que tinha disparado.
"Atirou, e houve aquela gritaria, entendeu? Fui ver. No carro, tinha uma criança baleada e a mãe da criança também baleada. O mundo cai. A verdade é essa. Aí vem a lembrança da nossa própria família. Passa uma sensação de impotência, porque você quer ajudar, mas ao mesmo tempo você causou um dano, mesmo que involuntário, e as pessoas do outro lado não querem saber disso".
A mãe e a filha sobreviveram. Sorte rara.
Outubro de 1998. O lanterneiro Sídnei Lima levava no carro para o hospital a mulher grávida em trabalho de parto e mais dois filhos. Um de quatro anos e uma menina de seis anos.
Policiais militares suspeitaram do carro de Sídnei, que passava de madrugada numa rua em Acari, no subúrbio do Rio. Os PMs não tiveram dúvidas. Dispararam vários tiros de fuzil em direção ao carro do lanterneiro.
A rua não tinha iluminação, e os policiais estavam escondidos. Em seu carro velho, Sídnei corria para chegar ao hospital. Os policiais saíram de trás da viatura, e mandaram que ele parasse. Sídnei acelerou. Os policiais deram 11 tiros. As balas entraram pela parte traseira do carro, que, desgovernado, bateu num poste.
Um dos PMs se aproximou e deu mais um tiro, que acertou o pescoço de Sídnei. A força da batida matou a mãe, Maria Cristina, e o filho que ela esperava. Um outro filho também morreu, baleado.
Uma bala Sídnei carrega até hoje nas costas.
"Eu tenho uma bala alojada nas costas que muito me incomoda a coluna. A bala que atingiu a cabeça do meu filho eu tenho guardada aqui de recordação".
A memória de Érica, hoje com 16 anos, ainda está viva.
"Quando os policiais começaram a dar tiros, os vidros começaram a cair em cima de mim, aí o tapete do carro levantou e eu fui para debaixo do tapete do carro. Eu acredito que se eles tivessem me visto, eles iam me matar".
Expulsos da corporação, os dois PMs envolvidos no caso acabaram absolvidos pela Justiça.
Um soldado da Polícia Militar, com quase 20 anos de trabalho na rua, diz que falta preparo.
"Nunca existiu treinamento. Eu passei seis meses, sabe quantos tiros eu dei? Eu dei cinco tiros de 38. Você sabe como é que eu fui conhecer o treinamento? Trabalhando na rua".
Procurada pelo Fantástico, a PM não quis responder a essas denúncias.
E é nesse ambiente que os policiais simplesmente não funcionam, segundo uma pesquisadora da fundação Oswaldo Cruz, que entrevistou mais de mil policiais militares.
"Isso reflete na população. Reflete na pouca eficiência do trabalho dele, que acaba repercutindo na população, que acaba sendo vitimizada. A gente está no meio desse fogo cruzado", revela a pesquisadora Edinilsa Ramos de Souza.
POLICIAL BOM E POLICIAL MORTO!
beloyanis 2 years ago 13
policial bão e policial no caixão
thiagovicenth31 1 year ago 6