Desviantes (da série hieróglifos sociais) de Ana Maria Tavares na Galeria Vermelho, 2011

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Uploaded by on Nov 25, 2011

Como parte do contexto do trabalho que desenvolvo desde 1997, voltado para a revisão e reflexão crítica do legado modernista brasileiro, faço uma releitura da arquitetura da OCA (Pavilhão Lucas Nogueira Garcez, Parque do Ibirapuera, SP, 1951), de autoria de Oscar Niemeyer (1907), para criar um universo desviante, contaminado, ao mesmo tempo em que simulo oferecer a possibilidade de retomada da ordem racional, plantada na idealização do mundo modernista. Há na série que se apresenta um jogo que lida com a noção da pureza visual alcançada com o racionalismo geométrico e que se desestabiliza com a atuação do visitante nas escolhas em que é levado a fazer diante das obras.

Painéis metálicos formam cortes horizontais de paisagens aterradas no solo, construídos em alumínio, aço inox, teflon e desenhos digitais para compor a série de 'Hieróglifos Sociais' em alusão à arquitetura moderna, modeladora de um novo entendimento de mundo que se dá a partir de prerrogativas políticas e sociais de seu tempo. Uma vez contaminada por manipulações digitais que fazem uso de rebatimentos especulares múltiplos -- artifícios visuais criados no processo de alteração do projeto original da OCA -- esta arquitetura se faz desviante e cede lugar a uma visão de mundo em abismo. As peças são estruturadas como painéis modulares e deslizantes, sobrepostos um ao outro, num ritmo que permite construir e desconstruir novas paisagens somando-se ao rebatimento quase caleidoscópico do espaço circundante que se projeta nas superfícies polidas do inox, negro ou prata. Enquanto as imagens se expandem no interior de painéis fixos são também aprisionadas num jogo sensual de velar e revelar, onde a paisagem se torna refém da obra e, ao mesmo tempo, sua salvação.

Para o título das peças foram escolhidos nomes de motéis cariocas que denotam a condição daquilo que pertence a um universo paralelo, em desvio. A obra se constrói a partir de paradoxos nos quais a razão modernista se vê contaminada das coisas mundanas, do desvio à ordem vigente e do possível prazer resultante. Construo esta série inédita conjugando materiais e processos industriais de modo a retomar a gestualidade e sensualidade do desenho, que desta vez se apresentam renovadas, se pensadas no contexto de minha produção dos anos oitenta e noventa, em que o desenho mural tomou forma e corpo em largas superfícies arquitetônicas.

A série 'Hieróglifos Sociais'_2011 é composta por 24 peças únicas em dimensões variáveis.
Ana Maria Tavares
São Paulo, 23/08/2011

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