Uploaded by odeapessoa on Nov 30, 2009
Fernando Pessoa morreu no dia 30 do mês de Novembro, em Lisboa.
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
Álvaro de Campos
-
17 likes, 0 dislikes
5:41
"Se te queres matar, porque não te queres matar?"by jorhf2,687 views
4:39
Fernando Pessoa - Se Te Queres Matarby tiagomaisdomesmo1,337 views
4:38
Fernando Pessoa - Se Te Queres Matarby mauryciorj117,343 views
0:40
Todas as cartas de amor são ridículasby odeapessoa3,708 views
4:45
Se Te Queres Matar - Fernando Pessoa - Paulo Autranby vadasjr1,712 views
0:28
Não digas nada!by odeapessoa2,026 views
5:45
O choro pode durar uma noite. IMPRESSOS GRAFICOS EM GERAL - SID_GRAF 2552-6614 / 3483-0421by sidnei802027,189 views
7:48
"Si te quieres matar, ¿porqué no te..." de FERNANDO PESSOA- Alvaro de Camposby pachino5411,407 views
21 videos

Escritor - Fernando Pessoa
1:28
Bebedeira Extremaby paulocastelo1973748 views
0:21
Banco Alimentar Contra a Fomeby cesarfig781,262 views
2:12
Fernando Pessoa - Poema em Linha recta.mp4by mindQuake8,075 views
2:52
Poesias faladas - www.antoniohenrique.com.ptby sitescriativos5,811 views
1:44
O Mostrengo - Fernando Pessoa, na voz de Paulo Autranby guaicuru2325,046 views
4:37
Álvaro de Campos - "Aniversário"by SoaresTeixeira4,540 views
1:40
Fernando Pessoa - Álvaro de Camposby elisamrb6,463 views
7:33
Fernando Pessoa: "O Guardador de Rebanhos" (1/10)by aninejf3,595 views
3:14
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)by wielandzinha7,526 views
0:29
Ritmo Vital con Mariana y Lourdes.by teenmodelsmexico3,892 views
4:49
Ser Poeta - Florbela Espanca - Cantado por Luís Represasby DragonPT84,203 views
2:08
Poesia Faladaby BRAINBOXFILMES5,008 views
- Loading more suggestions...
Adoro :D Qual vai ser o poema da semi-final do "Portugal Tem Talento"? :P
chururuca2 11 months ago
Pessoa, sempre positivo.
Djinga 1 year ago
Uauuuu!!! Excelente ;)
goncasrato 1 year ago
Muito bom.
morissette83 2 years ago
o melhor
Ruka22ed 2 years ago
"talvez, acabando, comeces"....
OU recomeces a declamar...
Para quando o próximo poema?
carinhoso1951 2 years ago
realmente, é uma das obras-primas de Pessoa, e também sua interpretação mais convincente!
iltonjardim 2 years ago 2
bárbaro!
iltonjardim 2 years ago
Muito bom, muito obrigado.
portuguesnanet 2 years ago