Uploaded by AleZawadzki on Jul 30, 2010
Carta de um louco
Meu caro doutor, ponho-me nas suas mãos. Faça de mim o que quiser.
Vou falar-lhe, bem francamente, do meu estranho estado de espírito, e o senhor apreciará se não valerá mais tomar conta de mim por algum tempo numa casa-de-saúde, do que deixar-me sujeito às alucinações e aos sofrimentos que me atormentam.
Eis a história, longa e exacta, do mal singular da minha alma.
Eu vivia como todo o mundo, olhando a vida com os olhos abertos e cegos do homem, sem me espantar e sem compreender. Vivia como vivem os animais, como vivemos todos, cumprindo todas as funções da existência, examinando e crendo ver, crendo saber, crendo conhecer o que me rodeia, quando, um dia, me apercebi que tudo é falso.
Foi uma frase de Montesquieu que iluminou bruscamente o meu pensamento. Ei-la: «Um orgão a mais ou a menos na nossa máquina far-nos-ia uma outra inteligência.
...Enfim, todas as leis estabelecidas sobre o facto da nossa máquina ser de uma certa maneira, seriam diferentes se a nossa máquina não fosse desta maneira.»
Reflecti sobre isto durante meses, e meses, e meses, e, a pouco e pouco, uma estranha claridade entrou em mim, e essa claridade fez em mim a noite.
Com efeito, - os nossos orgãos são os únicos intermediários entre o mundo exterior e nós. Quer dizer que o ser interior, que constitui o eu, se encontra em contacto, por meio de uns quaisquer filamentos nervosos, com o ser exterior que constitui o mundo.
Ora, não só esse ser exterior nos escapa pelas suas proporções, a sua duração, as suas propriedades inumeráveis e impenetráveis, as suas origens, o seu porvir ou os seus fins, as suas formas longínquas e as suas manifestações infinitas, como ainda os nossos orgãos não nos fornecem, sobre a sua parcela que podemos conhecer, senão informações tão incertas, quão pouco numerosas.
Incertas, porque são unicamente as propriedades dos nossos orgãos que determinam para nós as propriedades aparentes da matéria.
Pouco numerosas, porque, não sendo os nossos sentidos mais que cinco, o campo das suas investigações e a natureza das suas revelações encontram-se bem restringidas.
Explico-me. - O olho indica-nos as dimensões, as formas e as cores. Ele engana-nos sobre esses três pontos.
Ele não nos pode revelar senão os objectos e os seres de dimensão média em proporção com a estatura humana, o que nos levou a aplicar a palavra grande a certas coisas e a palavra pequeno a certas outras, unicamente porque a sua fraqueza não lhe permite conhecer aquilo que é demasiado vasto ou demasiado miúdo para ele. Donde resulta que ele não sabe e não vê quase nada, que o universo quase inteiro lhe permanece oculto, a estrela que habita o espaço e o animálculo que habita a gota de água.
Mesmo se ele tivesse cem milhões de vezes a sua potência normal, se percebesse no ar que respiramos todas as raças de seres invisíveis, assim como os habitantes de planetas vizinhos, existiriam ainda números infinitos de raças de animais mais pequenos e mundos de tal maneira longínquos que não os alcançaria.
Logo, todas as nossas ideias de proporção são falsas, pois que não há limite possível na grandeza, nem na pequenez.
A nossa apreciação das dimensões e das formas não tem qualquer valor absoluto, sendo determinada unicamente pela potência de um orgão e por uma constante comparação com nós mesmos.
(...)
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CONTOS FANTÁSTICOS
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