UM BREVE DESPERTAR
Eu e meu quarto
Eu em meu quarto
quarenta, terceiro sexto de século,
quarenta, segundo quarto
1 dois, 3, quatro
e em sonho sirvo o governo, o exército,
num quartel de que nunca saímos
e os homens querem se separar
do joio da jóia do país
querem se separar do vizinho,
do rádio, da televisão, do parlamentar,
do general, do primeiro,
do segundo, do terceiro, do quarto,
da língua, da mulher,
do partido, com o partido separatista,
da história, da polícia que não deixa,
da liberdade que não permite,
que prende, que amarra,
Eu e meu quarto
do frio do outono
do sol de outono
que faz bem à minha pele, aos meus olhos,
querendo se separar do verão tropical
do país tropical que reduz minha testa,
que queima meus miolos,
que diminui o meu tamanho
no quarto cada vez menor
do segundo para o terceiro
e depois o último e derradeiro
e quantos já vieram primeiro
sonâmbulos das mesmas palavras,
dos mesmos discursos,
presos as mesmas liberdades
como a dos africanos.
Eu em meu quarto
gostaria de gostar de você
gostaria de não me separar
mas meu corpo é preso
porém minha cabeça voa
por alguma estrada sem rumo
que vai para algum lugar
como aquelaa que me trouxe.
Dois quartos de viagem
Eu e o gigante adormecido
continuamos a dormir juntos
no mesmo quarto
na mesma cama
no mesmo ódio
no mesmo joio
escravo que lhe sou
esperando a sua morte caduca
seu último suspiro
seu descuido
... uma janela aberta.
Valionel (Léo Tomaz)
no momento, à Jorge de Sena,
poeta português.
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