Poeta castrado não! -- Ary dos Santos
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
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Elementos biográficos de Ary dos Santos
José Carlos Pereira Ary dos Santos (Lisboa, São Sebastião da Pedreira, 7 de Dezembro de 1936 — 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e declamador português.
Nasceu numa família de classe alta e, de ancestrais nobres. Era filho de Carlos Ary dos Santos (1905-1957), médico, e de Maria Bárbara de Miranda e Castro Pereira da Silva. (1899-1950) Nasceu na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, a 07 de Dezembro de 1936 e faleceu a 18 de Janeiro de 1984 na mesma cidade. Ficou conhecido no meio social e literário por Ary dos Santos.
Frequentou o Colégio de São João de Brito, em Lisboa, tendo-se encontrado entre os alunos do seu curso fundador.
A sua obra literária inicia-se no mesmo ano em que a sua mãe morre, aos 14 anos, quando vê publicados, através de familiares, alguns dos seus poemas, considerados maus pelo autor. No entanto, Ary dos Santos revelaria verdadeiramente as suas qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos de idade. É nessa altura que vê os seus poemas serem seleccionados para a Antologia do Prémio Almeida Garrett.
Fonte dos elementos biográficos de Ary dos santos:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ary_dos_Santos
'tá difícil a vida está; mas isso NÃO.
- "serei tudo o que disserem" — ouvi isto em menino...
Poeta castrado, NÃO!
barreirosandre 3 months ago