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Matrix, por Isabela Boscov

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Uploaded by on Sep 11, 2008

Isabela Boscov, Crítica de cinema de VEJA fala sobre Matrix

Category:

Film & Animation

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  • Bem, até mesmo uma analista brilhante e hiper-articulada como Isabela Boscov pode ás vezes desagradar quando um filme não cumpre a exigência de padrões clássicos da linguagem cinematográfica, ou um ator tem mais 'presença' e menos talento para enriquecer o personagem. O curioso é que a proposta de Matrix é mesmo provocante: as máquinas parecem mais humanas, e os personagens humanos são robóticos. O Agente Smith é o mais intenso. Neo é o menos expressivo. Dialética pura.

  • "Ao absorver para o cinema a estética do cubismo (passando para a tela plana a vertiginosa sensação de profundidade em 3 dimensões SEM usar a técnica de fotografia em 3D) inventando ou expandindo os recursos estéticos do inovador e revolucionário efeito visual batizado por eles de 'bullet time' e adaptar a linguagem cinematográfica para absorver a linguagem de outras mídias como os quadrinhos e o videogame, os irmãos cineastas Andy e Larry Wachowski revolucionaram a própria ciência do cinema."

  • “Matrix conseguiu misturar estilo e exuberância de uma maneira que os outros filmes não foram capazes”, afirma o filósofo Christopher Grau, da Universidade da Flórida, organizador de uma sessão do site oficial do filme chamado “A Filosofia de Matrix”.

  • Inúmeros livros já foram escritos sobre isso, e o mais recente é "Matrix: Bem-Vindo ao Deserto do Real" ('The Matrix and Philosophy'), coletânea de ensaios editada por William Irwin, professor de Filosofia da King’s College, Pensilvannia, onde diversos acadêmicos discutem e decodificam os elementos formadores do universo Matrix, recorrendo a associações de idéias dos filósofos Sócrates, Platão, Aristóteles, Kant, S. Tomás de Aquino, Sartre, Nietzsche, etc — todas essas idéias presentes no filme.

  • De agora em diante, todos os grandes filmes precisam respeitar a inteligência do público. Mais ainda: devem enfatizar um contexto repleto de cultura interior. Por tudo isso, Matrix tornou-se “algo em que nenhum cineasta ou estúdio consegue pôr um preço: a distinção de ser um divisor de águas, um filme capaz de mudar a percepção do público e a maneira de fazer filmes. Nesse sentido, Matrix figura na mesma galeria de Metropolis ou 2001 – Uma Odisséia no Espaço.” (Boscov, Isabela)

  • “Muito se fala em sinergia — a capacidade de várias mídias de se alimentarem umas ás outras — mas nada se compara ao plano de batalha dos Wachowski. Matrix foi concebido como uma trilogia (e um universo multimídia) e, mais do que isso, como uma experiência de imersão, em que as diversas ramificações de uma mídia a outra tornam ainda mais profundo o mergulho no universo dos Wachowski.” (Boscov)

  • Dentro da Matrix, cada ser humano é só uma projeção mental do seu próprio “eu” digital: um simulacro de si mesmo, que pode se tornar mais poderoso à medida em que toma consciência de si mesmo e da ilusão em que vive. O herói Neo é um hacker niilista, um cético duvidando de tudo, que esconde discos piratas dentro de um exemplar do livro Simulacros e Simulação do filósofo francês Jean Baudrillard — exatamente no capítulo sobre Niilismo.

  • No budismo, as almas estariam presas em um ciclo que se repete a cada encarnação — o carma — onde a ignorância as mantém presas nesse mundo. “Essa idéia foi bem tratada no filme como uma rede de computadores que liga as percepções dos indivíduos, permitindo que um reforce no outro a ilusão de um mundo que não existe”, diz a historiadora Rachel Wagner, da Universidade de Iowa, autora de um texto comparando as idéias do filme ás religiões e correntes filosóficas.

  • Em certo momento de 'Matrix Reloaded', Neo encontra o criador da Matrix: o Arquiteto. É o mesmo nome do Ego criador de toda ilusão no budismo. Quando o Buda alcançou a Iluminação, disse: “Apanhei-te, Arquiteto! Não criarás mais!” Este Criador informa a Neo que ele é apenas o sexto Escolhido a desafiar a Matrix, que a cada desafio vence e é reiniciada como qualquer programa.

  • Neo (de neófito), anagrama de One (o Único) é o Predestinado, o Escolhido para libertar a Humanidade. Trinity (Trindade) leva a ele a revelação (ou Evangelho) sobre sua condição, e o leva a Morpheus, filósofo e comandante da nave Nabucodonosor (nome do imperador da Babilônia que escravizou o povo judeu e foi levado á loucura através de sonhos). A base dos rebeldes que se libertaram da Matrix é a última cidade humana, Zion

    (de Sion, nome da primeira cidade construída pelo povo hebreu).

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