"O Show do Cláudio Amaral"

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Uploaded by on Feb 18, 2010

"O Show do Cláudio Amaral" entrou para a história como um dos programas de maior audiência nos áureos tempos da Rádio Sociedade da Bahia, emissora pertencente, na época, ao empresário basco, radicado no Brasil, Pedro Irujo.

Cláudio, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, era um comunicador típico das grandes emissoras: organizado ao extremo, disciplinado em sua jornada de trabalho, bom entrevistador, sabia, como poucos distribuir os quadros do programa sem jogar conversa fora.

Criativo, foi ao Rio de Janeiro e contratou o grupo "Os Golden Boys" para gravar a música de abertura e as vinhetas do show. "Hey, Cláudio Amaral, Cláudio Amaral..." foi inspirada numa melodia da banda "The Fevers", intitulada "Hey, Banana Hey". "São as mais bonitas da rádio", gabava-se, com razão.

Como ninguém é perfeito, Amaral tinha também sua porção "negativa". Era um profissional de caráter explosivo, do tipo "não levo desaforo para casa". Muita gente, sobretudo alguns companheiros de trabalho não gostava dele. Diziam aos quatro ventos que se tratava de um sujeito "pedante e autoritário", muito embora, reconhecessem sua extraordinária capacidade profissional.

Quem se atreve a falar mal do rei?

Por apresentar um programa relevante, Amaral recebia diariamente em seu horário a visita de inúmeros artistas populares. Certa ocasião, o cantor Jerry Adriani chegou de surpresa para uma entrevista. Diálogo estabelecido, Cláudio resolve fazer determinada observação negativa em relação a Roberto Carlos. Amigo do rei, Jerry não gostou do que acabara de ouvir e retrucou de dedo em riste: "Escuta aqui, ô Amaral; não posso permitir que falem mal de uma das pessoas que mais gosto. Roberto é inatacável".

- Mas eu não falei mal do Roberto, apenas disse que...

- Pois saiba você, e com pedidos de desculpa aos milhares de ouvintes da Sociedade, que a nossa entrevista está encerrada a partir deste momento.

Amaral não teve tempo sequer de contra argumentar. Jerry saiu de fininho e o operador, Oshana Serra Vale tratou de cobrir o vácuo com uma providencial vinheta da emissora.

O caso da mala

Às vésperas do Natal de 86, a equipe da Rádio Sociedade resolve realizar internamente a "Eleição do Mala do ano". O objetivo, esclarecer de uma vez por todas quem era o mais "traíra" e "indesejável" da turma. Cláudio Amaral foi eleito por maioria esmagadora de votos. Teve mais de duzentas indicações. E, com direito a diploma e tudo mais. Recebeu como troféu uma mala dessas antigas com forro de papelão duro (que mineiros do interior e nordestinos do sertão usam quando vão a São Paulo), além de uma vistosa medalha de "honra ao mérito". Puto da vida, foi reclamar com a direção da empresa.

De minha parte confesso que nunca tive nada contra o grande comunicador. Era meu amigo e entre nós havia respeito e admiração recíproca. Tanto é que não votei na mala dele, quer dizer, não ajudei a elegê-lo como os demais o fizeram.

Ouvinte ilustre

O programa do Cláudio Amaral, levado ao ar de segunda a sábado, das 4 às sete da noite, tinha várias atrações: "Parada do Povo", com os sucessos do momento (naquela época não havia axé, funk, breganejo ou algo de tão baixo nível sonoro como ocorre atualmente); "Parada Passada" (quando o comunicador resgatava boas músicas da Jovem Guarda, tangos, boleros e similares); "Telefone Premiado", com a participação do ouvinte (que ganhava alguma quantia em dinheiro diante de uma pergunta difícil); "Alô Taxi", que consistia na citação de uma placa de táxi aleatoriamente (caso o motorista do veículo estivesse ligado no programa era só passar na portaria da emissora e retirar o prêmio geralmente, um disco de vinil) além de outras atrações para garantir a audiência de quase 100 por cento.

O ponto alto do programa, porém, ficava por conta da "Oração da Ave Maria", às 18 horas, rezada de viva voz pelo speaker. Uma de suas mais ilustres ouvintes era Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Bethânia. A simpática velhinha acompanhava diariamente o programa através de um radinho antigo em sua cidade, Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, onde ainda vive com seus mais de 100 anos e sua longa experiência de vida.

Vitória das galinhas

Como o tempo se encarrega de tudo modificar, Cláudio Amaral deixou a Rádio Sociedade da Bahia no inicio da década de 90. Tentou levar o consagrado programa para outras emissoras de Salvador. As incursões não surtiram o efeito esperado. O AM já começava a dar sinais de cansaço diante da proliferação das FMs. Visionário, percebendo o início do fim da era dos grandes comunicadores radiofônicos, Amaral bateu em retirada voltando para o Rio Grande do Norte. A última notícia que tivemos dele, há mais de dez anos, é o que o mesmo havia se transformado num mega empresário do ramo granjeiro. As galinhas ganharam, o rádio perdeu. 10 a zero para as penosas.

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