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Uploaded by on Dec 11, 2007

Um pequeno devaneio à volta da televisão e da miséria que por lá anda!

I
Lamber as feridas da vida assim:
olhos fixos no Doutor das idiossincrasias
seres de objecto em abjecta contemplação
um e outro bocejo apenas o adiam
o entediam no sossego do sofá gasto
das horas e desoras de consumo

II
Ligar o aparelho lá no fundo da sala
uma refeição rápida em desequilibrio
acentuado na rotineira programação
nem na secção da comédia há a possibilidade
a necessária e oportuna leviandade
de um mero e ocasional sorriso
apenas um virar de página
sem que o mundo se desgaste.

III
O canal da memória infame
das almas empedernidas
dos assassinos sem dó
voltou e assentou arraiais
nefasta conclusão de impotência
sem sequer saber por onde estão

IV
O senhor das notícias regressa amiúde
miúdos desfigurados de essência
rude sensação de infância perdida
numa notícia de cruel trabalho infantil
que deixou de o ser
sem antever, retroceder
em amantizada posse de intromissão

V
Virús de impaciência alastra
crescendo de violência efectivado
na angústia daquele ser despreocupado
no desgovernado mundo de incoerências
baladas sem tom
balas no âmago do ser
só para destruir vidas

VI
Chega o homem do gás a casa
a mulher perfuma-se
mas tudo não passa de conversa
e o marido apenas vira a mesa do avesso
porque o bife tinha sal a mais
e o sexo já não é o que era

VII
O concurso dos amores desencontrados
porque não havia motivo natural
para encontros furtivos em paisagem real
foi preciso juntá-los
apimentar histórias banais
de baixo ventre desnudado
alguma desgraça sem graça
apenas uma lágrima
umas vias ridículas
só fazem sentido no concurso
da estupidez reencontrada
no encontro de ausências naturais
que passam no fulgor da manhã
das senhoras a engomar
de velhos que não vêem o tempo a passar
da absurda constatação
dos níveis decrépitos na confusão
na prontidão de dar um pouco de paz
um pouco de silêncio
pura ausência à inteligência
modos de agir e construir
apenas passar os dias
até à morte
ou o diabo que nos carregue!

VIII
E aquelas histórias
de insuspeitada sincronização
em silêncio deitadas
num vagão frio para a multidão
sem pudor, discrição apenas degradante
enforcada a leviandade da senhora
vadia em nem tinha onde cair
apenas história de folhetim
vendável, um assombro a propósito

IX
A meteorologia não anuncia sapos
esquilos ou crocodilos
céu em sangue
dinheiro exangue
apenas um furacão
um dilúvio regenerador
limpeza étnica e coordenada
ausência de sentidos
sentimentos ou sementes.
A meteorologia anuncia mau tempo
apesar dos sapos olharem par ao céu
e de o entardecer ensanguentar os céus!

X
Mudo por fim de canal e deixo-me ficar
um mendigo faz-me companhia
no essencial manancial de conhecimento
ressequido na necessidade
na sobrevivência e imunidade

XI
Levanto-me do sossego do sofá
de ossos alongados na árvore
num postigo ou mero alarido
da mentira sem inocência
na condescendência pela pena
do que será sempre esquecido
desguarnecido de amor!

XII
Faz-se então o silêncio
terminou o vendaval de negociações
do exercício ocular de leviandades
e o mundo há-de seguir indiferente
às suas próprias necessidades!

Manuel Marques

Category:

Entertainment

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