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Pedro Abrunhosa | A Cada Não Que Dizes

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Uploaded by on Jul 15, 2007

Lento,
Eu vi morrer o tempo,
Morto por fora e por dentro,
Como um pai enganado,
Um filho roubado,
Uma mão de soldado, um pecado,
Um cálice, um príncipe,
E num salto de lince,
Um fim que está perto,
Um quarto deserto,
Dois tiros no escuro, um peito feito no muro
E o rosto já frio, o som da morte no cio,
O passo a compasso
Das botas cardadas,
Espadas à espera,
O gume,
O lume da fera.
E ninguém percebeu que o mundo inteiro sou eu.
Longe,
Um mar que se rasga e me foge,
Uma dor que, por mais que se aloje, não vale o aço da bala
Coração que me embala, que estala, que empala no medo,
Um dédalo, um dedo,
Um gatilho já preso,
Um rastilho aceso, um fogo às cores pelo céu,
Desenhos loucos no breu,
Pintura pura a canhão,
Talvez vinte homens não cheguem,
Talvez aqueles me levem,
Talvez os outros se lembrem,
Que são homens como os que fogem
E nenhum Deus é maior,
Num ódio feito de dor,
E ninguém reparou que o mundo inteiro parou.
A cada não que dizes,
Abre-se um lugar no céu.
A cada não que dizes,
Abre-se um lugar no céu.
Fracos,
Como farrapos na cama,
Orgulho feito de lama, e o verbo ser a partir.
Palavras presas na alma, ruas de vento e vivalma,
Um límpido tiro, um suspenso suspiro,
Pietá nas notícias,
Gravatas impunes negando as sevícias
Vozes de ferro, de fogo, de fome, de fuga, de facas,
E as rugas pobres, já fracas,
Um poço morto de sede,
Grafftis numa parede,
E ninguém percebeu, que o mundo inteiro sou eu.
Outros,
Loucos, perdidos, sentidos certeiros,
Crianças feitas guerreiros,
A quem foi roubado o perdão,
Dois braços cheios de pão,
Napalm, na palma da mão,
Um fósforo fátuo,
Nos jornais o retrato
De um estilhaço, um abraço,
Um pedaço de espaço
De uma pátria sem chão.
Uma pétala pródiga, um remorso confesso,
Talvez a dor no regresso,
Talvez um dia o inverso,
Mas isso já eu não peço,
O mundo inteiro a fugir,
O mundo inteiro a pedir.
Que se oiça alto o teu Não.
A cada não que dizes,
Abre-se um lugar no céu.
A cada não que dizes,
Abre-se um lugar no céu.
Outros,
Fracos,
Longe,
Lento,
Não.

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Top Comments

  • Eu acho alguma piada a certos comentários... mas ainda gostava de saber se gostavam de ser um pequeno povo a resistir a um bilião de atrasados mentais lavados ao cérebro, que não tem mais nada na cabeça senão morte e destruição...

    Admiro certos povos pela coragem com que lutam pelos seus direitos mais essenciais.... por exemplo - "o direito a existir"...

    Mas as palavras são aquilo que quisermos que sejam,..

  • É admirável que esta música exista! Arrepiante! as pessoas não precisam apenas de saber dos conflitos, precisam de ver, sentir o drama dos inocentes para que se faça algo para calar o ódio. Ao Pedro, os meus parabéns por um enorme poema. E parabéns por este vídeo. Que se divulgue esta música, que muito pouca gente conhece.

Video Responses

This video is a response to Pedro Abrunhosa | Ilumina-me
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All Comments (31)

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  • Palavras que devem ser ouvidas e sentidas! Adoro esta canção por tudo o que simboliza, pelo poema grandioso, pela forma como o Pedro o canta...

    Parabéns! É um dos meus vídeos preferidos... Obrigada por estares aí e dares riqueza a este espaço.

  • PENSO QUE DEVEMOS UMA VÉNIA, Á MENTE DE GÉNIO QUE ESCREVEU TAL OBRA-PRIMA.....MEU DEUS SE ABRUNHOSA NÃO É O MELHOR COMPOSITOR PORTUGUES, VOU ALI E JA VENHO!!!

  • ESPECTACULAR

  • Divino!!!...estou emocionada, a letra e video "um protento"!

  • Foi confirmado que a crianca nao morreu, se duvidarem? , desmintam me, de qualquer forma excelente musica, acerca do "povo", olhem e complicado, eles nao se compreendem a eles mesmo ...

  • mais do que uma letra brilhante, a maneira como acelera a voz e carrega na voz a dor de um povo oprimido e esquecido pelos mais fortes...

  • ou 2 olhares;)?

    mas nesta música tenho de baixar as minhas "armas" e render-me a furia e indignação exigidas de serem cantadas, assim...

  • respect for the song writer

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