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Camboinhas - Cássio Tucunduva

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Uploaded by on Jul 3, 2009

'Camboinhas', de Cássio Tucunduva e João Luiz Magalhães, tem como pano de fundo a degradação do meio-ambiente e, por consequência, da vida humana, provocadas pela ganância via especulação imobiliária. Camboinhas, praia belíssima da Região Oceânica de Niterói, é exemplo típico de como não se planejar o futuro por uma visão estreita, com o foco no privilégio de poucos em detrimento dos interesses da coletividade.
O fato e´ que os dias de hoje deixam claro que, no fim da história, todos, sem exceção, sairam perdendo.
Ha´ menos de quatro décadas, Itaipu era uma dinâmica colônia de pescadores, charmosa pela simplicidade, que atraía boêmios e visitantes com sua fartura de peixes. A poucos metros dali, Camboinhas era a praia nativa dos sonhos, onde os momentos de lazer só eram interrompidos por uma muqueca, preparada por uma das daquelas privilegiadas senhoras que recebiam de bandeja pelo suor dos maridos, peixes e frutos do mar fresquinhos, alguns vivos, que chegavam direto das canoas para seus fornos e fogoes. Qualquer um, por mais exigente que fosse, atravessava o canal da lagoa sem pestanejar para saborear aqueles pratos servidos em casas humildes e limpíssimas. Camboinhas era a natureza na plenitude à disposição de todos. A violência ainda não mostrava sua cara monstruosa, permitindo que todos, sem problemas, dividissem em paz o mesmo maravilhoso espaço.
`A noite, namorava-se debaixo da lua e das estrelas, ao som apenas do mar e dos grilos. A felicidade so´ foi interrompida em 1954, quando um fato dramático colocou o local nas manchetes: o naufrágio do
navio 'Camboinhas', que deu nome à praia, deixando seu esqueleto na arrebentação por mais de 20 anos. Aqueles que frequentavam o local faziam galhofa, agradecendo pela da´diva ao velho e encrencado espólio de posse daquela a´rea praiana. 'Que fique senpre assim!' - dizia um, Outros ja´ torciam para que 'o pedaço' continuasse desabitado. Num almoço inesqueci´vel de domingo entre mais de 20 amigos, ao sabor de uma peixada regada a cervejinhas, sonharam ate´ mesmo com um futuro prefeito jovem, bem intensionado e visiona´rio que iria desapropriar aquela área para da´-la ao povo, fazendo ali um imponente parque público. 'Como o Aterro do Flamengo' - sugeria um deles. Esqueceram de lembrar que, o que menos importa para os administradores pu´blicos brasileiros, e´o povo. Poucos anos mais tarde, um alcaide jovem e com 'passado esquerdista' enganador, mal sentou-se no trono, 'endireitou-se', absorvendo toda a cartilha neo-liberal. Talvez sua mais nociva façanha tenha sido desenrolar aquela caótica documentação da posse das terras de Camboinhas para entregá-la totalmente desimpedida a uma empresa imobiliária do Rio. Ao contrário do projeto de Piratininga, premiado internacionalmente e implantado anos antes no bairro vizinho, preparou-se para Camboinhas um plano urbanístico criminosamente elitista, que construiu residências à beira-mar ignorando que ela e´ de todos,
formato preconceituoso que seria complementado mais tarde pelos influentes habitantes do bairro. Ate´ hoje eles conseguem impedir que coletivos circulem pelas ruas e, consequentemente, que os 'sem carro', cheguem à praia. grande distancia a pé. Feita para uma minoria dominante, a urbanização de Camboinhas, como não poderia deixar de ser, causou forte impacto no processo de ocupação da região Oceânica de Niterói. Provocou a favelização de áreas pro´ximas, como as margens da Lagoa de Piratininga, para onde migraram muitas famílias de antigos pescadores de Itaipu, forçados a abandonar suas pequenas casas à beira-mar e a mudarem de ramo. Engessada nessa mentalidade retrógrada travestida de modernidade, o caso emblemático de Camboinhas remete a uma reflexão aguda: despreparadas para suportar a demanda, as lagoas estão assoreadas e virando latrinas, os mananciais secando ou se transformando em valões, entre outros males gravíssimos. O resultado é que os peixes estão acabando e os pescadores continuam migrando, em boa parte, para atividades ilícitas como a venda de produtos 'pirata' no centro da cidade. Isso acontece enquanto uma elite obtusa, a principal responsável pela acelerada degradação, não consegue enxergar nada que não seja o próprio umbigo. Ela não vê que a sua qualidade de vida também desce pelo ralo, como a de todos os mortais. E acha que escapa desse mundo 'cruel' num carro-blindado ou atra´s de equipamenos de segurança em suas casas e condomínios. Não escapa. Porque não está a salvo do mais terrível dos inimigos: sua própria estupidez.

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