Uploaded by karipuna on Sep 18, 2007
Dona Raimunda Castanheira e Poetisa
Lúcia Tereza R. Rosário*
Não conheci D. Raimunda pessoalmente. Assisti seu depoimento em vídeo. Era extrativista do Assentamento Maracá. Filha de seringueiros, desde pequena trabalhou com a seringa e depois na coleta de castanha. Era provavelmente a produtora mais idosa do assentamento. No último festival da castanha realizado na Vila Maracá declamou uma poesia sobre os soldados da castanha.
Morava na comunidade de Igarapé Cutia há 42 anos, e, segundo ela mesma explica no vídeo, para chegar à sua casa era preciso seguir o rio e entrar à esquerda na Boca do Igarapé, num lugar chamado castanheira, depois seguir até o Porto do Gito Vale. A partir daí caminha-se uma hora ou mais.
Dia desses falei para os amigos que iria visitá-la e que iria fazer todo o percurso narrado no filme. Pensava em sentar em frente à sua casa, e enquanto quebrava umas castanhas para acompanhar um saboroso café, bateríamos um longo papo acerca da sua vivência na floresta. Perguntaria sobre suas lembranças dos tempos em que seus parentes participaram da 2ª Guerra Mundial como soldados da borracha sem saber que estavam na guerra, dos tempos em que os castanhais tinham patrões e que era preciso pedir permissão para plantar naquelas terras e nem vender a castanha se podia.
Como diz o amigo Pedro Ramos: Na época do aviamento, quando o Regatão chegava, se vendia a castanha no meio da noite e a pesagem era feita dentro d'água que era pra não chamar a atenção da milícia dos patrões.
Assim, papo vai e papo vem, ao final de cada prosa D. Raimunda diria uma frase que repete no filme "Taí essa minha comadre que não me deixa mentir". Quanta história oral, representações, imaginário e memória se foram para sempre. Quantos cafés seriam necessários para tanta prosa que não se concretizou.
D. Raimunda, assim como tantos castanheiros e seringueiros daquelas bandas teve uma vida árdua e cheia de sacrifícios morando num lugar isolado e desprovido de riquezas materiais, contudo, tinha orgulho de viver em seu castanhal, mesmo enfrentando tantas dificuldades. No vídeo, ela encerra seu depoimento com uma frase curta e cheia de poesia: "Eu tenho um castanhal, minha planta. Tenho cento e poucas castanheiras, todas frutíferas".
A frase certamente transmite o quanto ela foi feliz vivendo do que a floresta lhe oferecia e com o respeito e a adoração quase religiosa à terra, ao rio e à toda a biodiversidade que recebia gratuitamente e que retribuía preservando o lugar para seus filhos e netos, sem receber nenhum benefício por isso.
D. Raimunda nunca soube que esse seu modo de viver contribuiu para que trade-offs fossem evitados, que externalidades negativas fossem internalizadas, ou ainda qualquer outro termo do nosso linguajar acadêmico. Nenhum especialista em educação ambiental precisou dizer a ela que precisa preservar ou plantar desse ou daquele jeito. Isto porque se estabelecia uma relação com a natureza onde não havia conflito de escolha, mas sim uma interação harmoniosa que é pouco comum nos dias de hoje, onde há uma forte pressão sobre os recursos naturais.
D. Raimunda faleceu no início de setembro de 2007. Aos seus familiares os sinceros sentimentos de pesar de toda a equipe do Projeto Poraquê.
imagens-Gil Acauã).
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linda apaixonei parece minha amada vozinha
santinha25 2 years ago
que linda.
Trottbrown 3 years ago
Dona Raimunda era uma guerreira. Também senti vontade de conhece-la.
G. Lu
tvasanorte 4 years ago
Dona Raimunda era uma guerreira. Também senti vontade de conhece-la.
G. Lu
tvasanorte 4 years ago
Parabéns Gil Acauã.
Bjs da sua esposa. T.
tvasanorte 4 years ago