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Pic Nic (videoarte experimental)

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Uploaded by on Jun 24, 2009

Corpo e entranhas. O furor dos tambores. O eco da boca do estômago. Sob o sol fustigante. O vento que sopra ligeiro e distante, traz a lembrança, triste lembrança salgada. Podemos concordar em uma coisa:mais universal que o paladar, é a própria fome. Retomemos as palavras de Glauber Rocha, cineasta da miséria brasileira: "nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida" (Estética da fome, 1965, acessível em www.tempoglauber.com.br). Através da linguagem cinematográfica, gostaríamos de iniciar um breve percurso analisando a relação entre trabalho e alimentação, passando, é claro pelo conceito de indústria cultural. A escolha da alimentação (ou a "não alimentação"), enquanto objeto do nosso olhar cinematográfico, na verdade, não se dá ao acaso. Fala-se inclusive em uma "cosmética da fome" no cinema nacional, percurso este que se iniciaria lá em Glauber Rocha, entusiasta das idéias de Josué de Castro, assim como Chico Science. De Aruanda a Vidas Secas, o cinema novo exploraria ao máximo o drama da fome, tema este que seria revisitado em filmes como A Festa de Margarete (Renato Falcão) e o recente Estamira (Marcos Prado), além de curtametragens como A Ilha das Flores e Veja bem (Jorge Furtado). O que percebemos nesses filmes e que também concordamos é que se existe fome, é porque existe uma sociedade que a engendra, e a multiplica sob a forma das imagens mais miseráveis, a que nos dirigimos, por vezes, sem o mínimo senso crítico. Comemos com os olhos, deixando-nos levar pelos aromas, sabores e pessoas, despertados pelo espetáculo visual, sem nos atentar ao fato que de repente o que se passa na tv não passa de cinema digestivo. Pra não falar em uma certa tendência de quem tem conhecimento da fome apenas através de telejornais de acreditar que ela encontra-se sempre em um oriente exótico. Mas encontramos no cinema também a posição de enfrentamento: as imagens denunciam o que na verdade é um problema político-econômico: trabalhar pra ganhar o pão que se come, comer para poder trabalhar, tentar enganar mais um dia a morte, tentar enganar mais um dia a fome...

É a fome enraizada em nossa incivilização.

Direção: Bruna Maresch / Edição: Bruna Maresch, Ligia Brito e Silvio Brunno / Performance: Bruna Maresch / Videomaker: Silvio Brunno / Imagens de "Brasilianas: cantos de trabalho" (1955), de Humberto Mauro / Som: Silvio Brunno e Bruna Maresch / Música: "No Barro Agreste Nasce (Soneto), da banda Pangenianos (através do site Jamendo)

Obra realizada como pesquisa e produção para a disciplina de Cultura Visual do curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Santa Catarina no 1° semestre de 2009, sob orientação da professora drand. Jociele Lampert.

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