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Vitor Ramil - Joquim

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Uploaded by on Dec 18, 2008

Satolep
Noite
No meio de uma guerra civil
O luar na janela não deixava a baronesa dormir
A voz da voz de Caruso
Ecoava no teatro vazio
Aqui nessa hora é que ele nasceu
Segundo o que contaram pra mim

Joquim era o mais novo
Antes dele havia seis irmãos
Cresceu o filho bizarro
Com o bizarro dom da invenção
Louco, Joquim louco
O louco do chapéu azul
Todos falavam e todos sabiam
Quando o cara aprontava mais uma

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

Muito cedo
Ele foi expulso de alguns colégios
E jurou: Nessa lama eu não me afundo mais
Reformou uma pequena oficina
Com a grana que ganhara vendendo velhas invenções
Levou pra lá seus livros, seus projetos
Sua cama e muitas roupas de lã
Sempre com frio, fazia de tudo
Pra matar esse inimigo invisível

A vida ia veloz nessa casa
No fim do fundo da América do Sul
O gênio e suas máquinas incríveis
Que nem mesmo Julio Verne sonhou
Os olhos do jovem profeta
Vendo coisas que só ontem fui ver
Uma eterna inquietude e virtuosa revolta
Conduziam o libertário

Dezembro de 1937
Uma noite antes de sair
Chamou a mulher e os filhos e disse:
Se eu sumir procurem logo por mim
E não sei bem onde foi
Só sei que teria gritado a uma pequena multidão
Ao porco tirano e sua lei hedionda
Nosso cuspe e o nosso desprezo!

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

No meio da madrugada, sozinho
Ele foi preso por homens estranhos
Embarcaram num navio escuro
E de manhã foram pra capital
Uns dias mais tarde, cansado e com frio
Joquim queria saber onde estava
E num ar de cigarros
De uns lábios de cobra, ele ouviu:
Estás onde vais morrer

Jogado numa cela obscura
Entre o começo do inferno e o fim do céu
Foi assim que depois de muitas histórias
A mulher enfim o encontrou
E ele ainda ficou ali por mais dois anos
Sempre um homem livre apesar da escravidão
As grades, o frio, mas novos projetos
Entre eles um avião

O mundo ardia na guerra
Quando Joquim louco saiu da prisão
Os guardas queimaram os projetos e os livros
E ele apenas riu, e se foi
Em Satolep alternou o trabalho
Com longas horas sob o sol
Num quarto de vidro no terraço da casa
Lendo Artaud, Rimbaud, Breton

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

No início dos anos 50
Ele sobrevoava o Laranjal
Num avião construído apenas das lembranças
Do que escrevera na prisão
E decidido a fazer outros, outros e outros
Joquim foi ao Rio de Janeiro
Aos órgãos certos, os competentes
Tirar uma licença

O sujeito lá responsável por essas coisas lhe disse:
Está tudo certo, tudo muito bem
O avião é surpreendente, já vi
Mas a licença não depende só de mim
E a coisa assim ficou por vários meses
O grande tolo lambendo o mofo das gravatas
Na luz esquecida das salas de espera
O louco e seu chapéu

Um dia alguém lhe mandou um bilhete decisivo
E claro, não assinou embaixo
Desiste, estava escrito, muitos outros já tentaram
E deram com os burros n´água
É muito dinheiro, muita pressão
Nem Deus conseguiria
E o louco cansado, o gênio humilhado
Voou de volta pra casa

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

No final de longa crise depressiva
Ele raspou completamente a cabeça
E voltou à velha forma com a força triplicada
Por tudo o que passou
Louco, Joquim louco
O louco do chapéu azul
Todos falavam e todos sabiam
Que o cara não se entregava

Deflagrou uma furiosa campanha
De denúncias e protestos
Contra os poderosos
Jogou livros e panfletos do avião
Foi implacável em discursos notáveis
Uma noite incendiaram sua casa
E lhe deram quatro tiros
Do meio da rua ele viu as balas
Chegando lentamente

Os assassinos fugiram num carro
Que como eles nunca se encontrou
Joquim cambaleou ferido alguns instantes
E acabou caído no meio-fio
Ao amigo que veio ajudá-lo, falou:
Me dê apenas mais um tiro por favor
Olha pra mim, não há nada mais triste
Que um homem morrendo de frio

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

Category:

Music

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Uploader Comments (tauico81)

  • Sempre que ouço essa música, lembro de outro poeta e cantor, Renato Russo, poucos são os que conseguem escrever uma letra tão elaborada, onde ao escutarmos não precisamos clipes, pois a nossa própria mente o produz...

    Para alguns posso estar falando bobagem, mas é isso que sinto, parabéns Vitor

  • ...e é engraçado... eu tenho um clipe perfeito prá mim, só no meu pensamento...

  • MUITO bom. suas palavras sobre o vitor e o renato foram exatas.

    e você captou bem a idéia de não ter nem uma "montagem de fotos", só a música e a letra ao lado.

    as pessoas parecem estar esquecendo como ouvir música, como ler...

    Abrazzo do ...Tauico!

  • "Satolep, noite..." Será que "Satolep" não quer dizer Pelotas, cidade gaúcha???

  • exatamente! que é a cidade-natal do vitor ramil...

    ^^

Top Comments

  • Foto do Morrissey ao fundo? :P

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All Comments (74)

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  • @AlanCristhian

    se vc perceber Satolep é pelotas de tras para frente kkkk

  • Acho que como todos que curtem esse som, minha mente voa imaginando essa história.

  • A verdadeira história de Joaquim da Fonseca, para aqueles que se interessam pela história do Brasil

    UMA HISTÓRIA DE INVENÇÕES: MEMÓRIA, NARRATIVA E BIOGRAFIA EM JOAQUIM FONSECA de Sérgio Luiz Peres de Peres

    Procurem no Google

  • @vinimad29 João De Santo Cristo é ficticio. Joquim existiu, era Joaquim Da Fonseca!

    Sem comparação!

  • espetáculo essa música!!! e a foto parece muito que é Morrissey sim!!!

  • espetáculo essa música!!!

  • Joquim é o joao de santo cristo dos pampas

  • @goidogol Música e letra originais de Bob Dylan & Jacques Levy, sim, senhor ignorante. Album "Desire" (1976), faixa "Joey". Procure no YouTube ou Wikipedia, se é que você sabe como.

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