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soutoda boa

Portugal Podre (2012) performance efémera e mal cheirosa

764 views 2 years ago
Todos os dias, todos os supermercados e restaurantes e mesmo pequenas mercearias ou talhos, deitam quantidades insanas de comida perfeitamente comestível para o lixo, apenas para manter o mercado a girar à velocidade automática de compra e venda e produção e desperdício a que o habituámos.

Todos os dias Portugal, país pequeno e modesto e sonhador e tantas vezes deveras apático, cai cada vez mais dentro da armadilha da macro-economia europeia em que fomos inevitavelmente inseridos com vista a seguirmos as pressões da maioria.

Enquanto a nossa agricultura evapora e apodrece, esquecemos o que é natural e poluimos o nosso próprio quintal planetário; as garras dos bancos apoderam-se do dinheiro inventado que manipulam e emprestam a seu bel-prazer; passando por cima das vidas e ilusões dos que nunca tiveram a hipótese de olhar o mundo a partir do topo da pirâmide dos privilégios.

Esta performance é um manifesto, esta performance cheira mal, é pegajosa, nojenta até, onírica mas efémera, veio do lixo mas voltará à terra, será enterrada no auge do seu bolor no jardim em frente à assembleia da república portuguesa, quando já nada restar da nossa nação, nem o saudosismo dos descobrimentos, nem a poesia dos navegadores, apenas um odor acre a tudo o que fomos e a tudo o que deixámos perder-se em prol duma alucinação colectiva, que agora virou global, chamada dinheiro.

Será uma marcha fúnebre de protesto que virará festa, antes que o manto do controlo nos manche a todos o coração, revoltemo-nos pelos direitos à beleza e à arte, contra a mecanização dos sentimentos e o esquecimento do sabor dum sorriso.


Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti Alexandre O'Neill Show less
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