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Recolher influências, manipular gostos, entrecruzar sensibilidades e fertilizar o projecto de acção-intervenção com humor e teatralidade: eis a proposta deste grupo de jovens sendineses, Els Picä Tumilho, que se assumem, com gozo e ironia, como uma "agrícola rock band" que pratica um "hard rock etnográfico".
A irreverência aliada a um enorme prazer em fazer da música um veículo de comunicação, cantando na língua natal - o Mirandês - que já faziam mesmo antes de ser declarada língua oficial. E fazem-no para abordar facetas, peripécias, diálogos e histórias imaginadas (com um fundo real) da região, fazendo do palco também um espaço de teatralidade, de representação crítica e denunciadora.
Ao vivo tentam criar cenas da vida do quotidiano de um povo primário, utilizando vestuários e instrumentos puramente etnográficos, construindo assim o cenário para uma peça teatral que relata as letras das músicas.
Cantam o "amor agrícola, à luz da candeia", uma corrente musical progressiva a que alguém já chamou "surrealismo rural". Os Pica Tumilho gabam-se de ser o maior grupo de rock agrícola do mundo e deixam um aviso prévio ao público: quem assistir aos seus concertos "arrisca-se a levar para casa uma sachola autografada".
Os Pica Tumilho surgiram pelo Natal de 1998. O gosto comum pelo rock progressivo das décadas de 70 e 80 juntou cinco jovens estudantes num projecto que, começando num a-ver-o-que-sai-de-aqui, se prepara agora para completar uma década de existência. Para trás um disco (Sacho, Gaçpóia i Rock n'Roll) , muitos concertos para públicos heterogéneos, histórias extraordinárias para mais tarde recordar, e rir, e, sobretudo, o contributo para a expansão da segunda língua oficial de Portugal.
À semelhança das grandes óperas-rock, também os Pica Tumilho criaram duas personagens que os acompanham para todo o lado, o casal Florinda e Alfredo Pica, e que querem ver transpostos para uma banda desenhada em mirandês. Florinda é "uma donzela do campo, singela, meiga, trabalhadeira, madrugadora, que não perde uma missa, fã de música pimba".
Alfredo "é um vadio, bebedolas, preguiçoso, playboy, roqueiro por natureza, que não perde uma noitada na discoteca".
Reza a canção Se quejires ser labrador (ténes que tener un trator) que Florinda se lançou nos braços de Pica depois de saber que este adquirira um tractor de mil cavalos, "no fundo uma crítica aos abusivos projectos agrícolas extraídos à CEE", pois claro.
O apego aos valores da terra granjeou ao grupo classificativos como "mentalidade de tractor", "banda do sector primário" ou "pimba superdotados". No entanto, o vocalista, Emílio Martins, prefere defini-los, como "azeiteiros do rock n'roll". "Porque somos todos sócios da prensa do azeite", explica. Insiste que ao contrário de outras bandas nacionais a temática dos Pica Tumilho condiz com as origens dos seus membros. "Somos agricultores. Agora já não profissionalmente, mas continuamos a respirar o ar agrícola".