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From: olhandoestrelas
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  • Deu saudades do tio Arthur, sempre comuma cara alegre, cercado de amigos, falando bobagem. Tia Diana, linda, como sempre... eu ainda nem era nascida nesse tempo, mas dá vontade de voltar a uma época que eu nem vivi.

  • A Safra do Bateau

    Nos bares do Conde Hubert de Castejá sempre encontrei alguma coisa que não vejo em outros lugares. Sente-se que alguma coisa esta mudando, alguma coisa nasce, o tempo passa. No Black Horse vimos surgir a geração Cha Cha Cha. No Le Bateau antigo, presenciamos a mistura de gerações, pais e filhos dançando na mesma pista. Agora, são as antigas meninas que dominam a praça.

  • As meninas estão soltas.Lindas.Dançam a maneira das deusas de outrora.Todas com aquele beiçinho lançado para a frente. Muitas delas eu vi crescer, conheci o primeiro namorado, e o segundo, e o terceiro. Muitas eu vi ciscando Vinicius de Moraes, no afã de aprender o que é o açucar e o afeto. Algumas ficaram adultas e de repente me olharam nos olhos, desafiadoras.

  • Aqui, no Le Bateau, elas dominam o ambiente. Próximas e inalcançáveis. Distantes e acessíveis. Inocentes e cruéis. A característica essencial de todas elas é que não tem medo de nada. E por esta razão nós ficamos sem padrão de conduta, sentindo que elas escorregam da palma da mão como água.

    Homens já muito vividos dançam, namoram essas meninas. São homens que já se entregaram a todas as alternativas de solidão. Agora,enfrentam essas mulheres em flor.

  • Na Zona Sul se fala em safras de meninas. A nova safra esta uma beleza! A safra de 1970 vai ser fogo! Compreendemos com clareza que cada ano implica um novo tipo de mulher. Novo por dentro e por fora. Isto se deve que a formação das moças obedece a padrões aceitáveis, mas anacrônicos. A iniciação é feita na rua.

    Elas aprendem o mundo numa espécie de clandestinidade a que são lançadas pela omissão, a hipocrisia e a ignorãncia dos mais velhos.

  • Resultado:100 menininhas se reunem em casa, na escola, na praia, e inventam um padrão de conduta, um modo de vestir, um vocabulário. Isto, durante anos. E de repente elas explodem ao sol. O pai olha e diz assim:"Já não entendo a minha filhinha. "Mas ela também não entende nada. Ninguém lhe ensinou coisa alguma.

    Em seguida elas começam a sofrer, e assim vão apredendo a dura lição.

  • Depois, começam a fazer sofrer, e assim vão excercendo o direito que julgam ter à vingança. E se tornam mulheres mitológicas- distantes, mas terrivelmente vulneráveis.

    Creio que dentro de pouco tempo se poderá falar na safra do Le Bateau. Já na maioridade, lá estão elas, dançando como deusas ou como bichinhos feitos de pura sensualidade. Ninguém se iluda:o mundo que nós conhecemos já terminou.

    (Ou será que bebi muito esta noite?)

    JB 16/12/67 José Carlos Oliveira (1934-1986)

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